
Durante o século XIX e até ao início da década de 70 da centúria seguinte, Caldas das Taipas foi um activo centro termal do noroeste de Portugal. As características das suas nascentes termais, as suas óptimas condições naturais e geográficas e a sua oferta hoteleira permitiram que, ligado a uma conjuntura favorável às estâncias termais, se registasse, nesse período, uma elevada afluência de aquistas.
Do extenso universo desses aquistas que encontravam, nas Taipas, um ambiente acolhedor e de repouso, decidimos dedicarmos neste artigo, à presença de dois destacados romancistas portugueses: Camilo Castelo Branco e Ferreira de Castro. embora afastados no tempo, estes vultos da literatura portuguesa constituem duas singulares presenças na história e na memória colectiva desta vila.
Camilo Castelo Branco
A tradição, a história, a obra e o próprio testemunho de Camilo comprovam-nos que este romancista permaneceu nas Caldas das Taipas por inúmeras ocasiões, como veremos de seguida.
No Discurso Preliminar das “Memórias do Cárcere”, Camilo Castelo Branco evoca alguns dos dias em que viveu nas Taipas, enquanto andava perseguido pela justiça por razões amorosas. Ana Augusta Plácido casada com o conselheiro Manuel Pinheiro Alves, liga-se sentimentalmente a Camilo, chegando em 1859, a fugir definitivamente para os seus braços. Entretanto, o marido de Ana Plácido instaura um processo aos adúlteros, sendo ambos condenados. Devido a esta situação, Camilo e Ana Plácido andaram foragidos desde o mês de Maio de 1860, por diversas terras do norte ( Samardã, Vila Real, Guimarães, Taipas, etc.) até que, cada um por sua vez são presos: primeiro Ana Plácido, a 6 de Junho de 1860 e seguidamente o romancista a 1 de Outubro desse mesmo ano. Com efeito, Camilo permanece na Cadeia da Relação do Porto, até 16 de Outubro do ano seguinte, data em que foram ambos absolvidos.
Foi nesta época acidentada e difícil da sua vida, sensivelmente na primeira quinzena de Junho, que camilo se refugiou nesta povoação termal. Francisco Martins Sarmento, seu amigo, foi quem lhe arranjou alojamento numa casa vizinha da actual pensão Vilas e próxima dos “Banhos Velhos”. Segundo a tradição, Camilo para não ser reconhecido pelos diversos doentes que frequentavam diariamente este estabelecimento termal em plena estação balnear, tomava banho nas águas sulfurosas à noite (OLIVEIRA 1994: 9). pode-se estranhar o facto de Martins Sarmento não ter instalado o escritor no seu Solar da Ponte, em Briteiros, situado a poucos quilómetros das Taipas, mas segundo o Dr. Santos Simões “as relações entre ambos não tinham ainda o carácter de intimidade que rapidamente alcançaram e o facto de Camilo andar foragido à justiça obrigou a uma situação de compromisso ” (SIMÕES 1990: 16).
Camilo refere igualmente nas suas “Memórias do Cárcere” que enquanto se encontrava nas Taipas, dava passeios de barco no rio Ave com Martins Sarmento, apreciava as frescas carvalheiras, frequentando por vezes, os bailes da Assembleia, apesar do receio de ser reconhecido.
Após este período passado nas Taipas, o escritor desloca-se para a Quinta do Ermo (cercanias de Fafe) do seu amigo José Cardoso Vieira de Castro. Tempo depois, Camilo é novamente hóspede de Martins Sarmento, mas agora na sua Quinta da Ponte.
Depois desta temporada que permaneceu nas Taipas, fugido dos agentes judiciais, Camilo não deixou de visitar esta povoação. Na sua correspondência travada com José Vieira de Castro, entre 1870-1872, Camilo refere em muitas dessas cartas que frequentava as Taipas, juntamente com Ana Plácido, em busca de alívio dos sofrimentos que padecia (CORRESPONDÊNCIA 1968). Numa dessas cartas, o escritor afirma que consultou três médicos para tentarem diagnosticar os males que antecederam a sua cegueira, que o conduziriam ao suicídio em 1890: “Antes de ontem reuni aqui três médicos. Não sei o que pensam de mim. O de Braga chama gastralgia à moléstia. O de Guimarães também. E o das Taipas, que cura há 60 anos, ainda não sabe o que é. Eu sei, e louvo a delicadeza de todos” (CORRESPONDÊNCIA 1968: 37). Igualmente na sua correspondência travada com Martins Sarmento encontramos cartas, nas quais nos apercebemos claramente que, na década de 80, Camilo era ainda um assíduo visitante desta estância. A título de exemplo, podemos mencionar o seguinte extracto datado de 23 de Maio de 1881, escrito por Martins Sarmento e dirigido a Camilo: “Eu conto ir para Briteiros no dia 8 de Junho. Se for para as Taipas veremos se é capaz de ir ver as minhas velharias” (CARTAS 1990: 65).
Ferreira de castro
Há mortos que continuam a viver. É o caso de Ferreira de Castro que falecia no dia 29 de Junho de 1974, no Hospital de Santo António, na cidade do Porto. Este gigante das letras Portuguesas, tornou-se conhecido fora das fronteiras do idioma em que escreveu, devido ao sentido de humanidade e ao carácter universal dos temas tratados nas suas obras. Com efeito, transformou-se, em poucos anos, no mais traduzido escritor português no mundo.
Três anos antes da ocorrência da sua morte, foi-lhe prestada nas Caldas das Taipas uma significativa e merecida homenagem. Desde a década de 50, Ferreira de castro passava as suas férias no seio desta povoação minhota, hospedando-se no Hotel das Termas, num quarto das traseiras onde mantinha uma escrivaninha de trabalho. As malas de madeira que continham os livros e papéis, necessários para trabalhar, eram despachadas dias antes da vinda, de Lisboa para o Minho, (FREITAS: 28). Do quarto de hotel avistava o frondoso parque da Empresa Termal que possivelmente lhe terá servido de inspiração para alguns dos seus romances. Não convém esquecer, que entre as sete localidades onde o autor redigiu o “Instinto Supremo” (1965-1967) figuram as Caldas das Taipas. Durante anos a fio, este romancista - exemplo de simplicidade e humildade - convivia com os Taipenses, estabelecendo profundos laços de amizade, embora muitos desconhecessem o seu nome, como afirma textualmente o próprio escritor:
“ (...) Tenho residido em vários povoados do Minho, sobretudo nas Caldas das Taipas, onde o Ave, de dia, e a lua, de noite falam muito comigo; e tenho convivido, Verão após Verão, com numerosos camponeses. Ao começo das nossas relações quase todos estes homens e estas mulheres, cuja vida quotidiana representa um dos diversos heroísmos que a História não celebra, ignoram até o meu nome. Para eles eu sou apenas aquele senhor que vem todos os anos, passar alguns meses nas termas e costuma sentar-se numa pedra, à beira dos campos, a ler ou a olhar para as árvores (...) ” (HOMENAGEM 1971: 5).
Todos o respeitavam nas taipas, tal era a sua simpatia e solicitude pela população local, ao longo dos seus habituais passeios “pelas avenidas e jardins da vila e mesmo na fugidia visita aos cafés da terra, para descanso ou para assistir às edições da televisão” (OLIVEIRA 1971: 4). Em suma, no coração dos habitantes das Taipas, Ferreira de Castro era considerado como um Taipense honorário (OLIVEIRA 1994A: 20; Oliveira 1994B: 14 ).
Enquanto passava parte das suas férias nesta vila, muitos eram os seus amigos e admiradores que o visitavam e de cuja povoação, Ferreira de Castro enviou e recebeu cartas e postais de muitos outros. Entre estes contam-se Mário Dias Ramos, como refere Ferreira de Castro, num artigo publicado no “Diário Popular” do mês de Novembro de 1971: “(...) há dois ou três anos, estando eu nas Caldas das Taipas, recebi do meu colega de letras Mário Dias Ramos uma carta muito gentil, pedindo-me uma entrevista para aquele organismo (R.T.P.). Mas eu declinei o convite (...)” (S/A 1976: 57). Outro amigo que o visitou nas Taipas, no Verão de 1958, foi Agostinho Gomes (GOMES 1976: foto reproduzida na pág.151).
no ano de 1963, o autor de “A Selva” após ter permanecido dois meses nesta estância termal, no momento da sua retirada para Lisboa entregou a José de Oliveira, seu amigo das Taipas “algumas palavras” para serem publicadas no semanário “Notícias de Guimarães” prometidas no Verão anterior (OLIVEIRA 1963). Tratava-se de um texto inédito da sua autoria intitulado “A Terra onde a Lua fala” em referência às Caldas das Taipas, que seria editado no “Notícias de Guimarães” do dia 29 de Setembro de 1963 (CASTRO 1963: 1). Nessa mesma edição, o Sr. José de Oliveira, correspondente das Taipas referia-se nesses termos a esse texto de Ferreira de castro:
“ A terra onde a lua fala constitui um poema que muito honra e enaltece as Caldas das Taipas e o seu Autor, seu grande Amigo.
Ferreira de Castro, abrindo uma excepção - visto que não costuma colaborar em jornais - brindou-nos com um escrito que ficará para a história das Taipas e a juntar a muitos outros de outros escritores portugueses e de que tanto se orgulham os taipenses” (OLIVEIRA 1963).
Do extenso universo desses aquistas que encontravam, nas Taipas, um ambiente acolhedor e de repouso, decidimos dedicarmos neste artigo, à presença de dois destacados romancistas portugueses: Camilo Castelo Branco e Ferreira de Castro. embora afastados no tempo, estes vultos da literatura portuguesa constituem duas singulares presenças na história e na memória colectiva desta vila.
Camilo Castelo Branco
A tradição, a história, a obra e o próprio testemunho de Camilo comprovam-nos que este romancista permaneceu nas Caldas das Taipas por inúmeras ocasiões, como veremos de seguida.
No Discurso Preliminar das “Memórias do Cárcere”, Camilo Castelo Branco evoca alguns dos dias em que viveu nas Taipas, enquanto andava perseguido pela justiça por razões amorosas. Ana Augusta Plácido casada com o conselheiro Manuel Pinheiro Alves, liga-se sentimentalmente a Camilo, chegando em 1859, a fugir definitivamente para os seus braços. Entretanto, o marido de Ana Plácido instaura um processo aos adúlteros, sendo ambos condenados. Devido a esta situação, Camilo e Ana Plácido andaram foragidos desde o mês de Maio de 1860, por diversas terras do norte ( Samardã, Vila Real, Guimarães, Taipas, etc.) até que, cada um por sua vez são presos: primeiro Ana Plácido, a 6 de Junho de 1860 e seguidamente o romancista a 1 de Outubro desse mesmo ano. Com efeito, Camilo permanece na Cadeia da Relação do Porto, até 16 de Outubro do ano seguinte, data em que foram ambos absolvidos.
Foi nesta época acidentada e difícil da sua vida, sensivelmente na primeira quinzena de Junho, que camilo se refugiou nesta povoação termal. Francisco Martins Sarmento, seu amigo, foi quem lhe arranjou alojamento numa casa vizinha da actual pensão Vilas e próxima dos “Banhos Velhos”. Segundo a tradição, Camilo para não ser reconhecido pelos diversos doentes que frequentavam diariamente este estabelecimento termal em plena estação balnear, tomava banho nas águas sulfurosas à noite (OLIVEIRA 1994: 9). pode-se estranhar o facto de Martins Sarmento não ter instalado o escritor no seu Solar da Ponte, em Briteiros, situado a poucos quilómetros das Taipas, mas segundo o Dr. Santos Simões “as relações entre ambos não tinham ainda o carácter de intimidade que rapidamente alcançaram e o facto de Camilo andar foragido à justiça obrigou a uma situação de compromisso ” (SIMÕES 1990: 16).
Camilo refere igualmente nas suas “Memórias do Cárcere” que enquanto se encontrava nas Taipas, dava passeios de barco no rio Ave com Martins Sarmento, apreciava as frescas carvalheiras, frequentando por vezes, os bailes da Assembleia, apesar do receio de ser reconhecido.
Após este período passado nas Taipas, o escritor desloca-se para a Quinta do Ermo (cercanias de Fafe) do seu amigo José Cardoso Vieira de Castro. Tempo depois, Camilo é novamente hóspede de Martins Sarmento, mas agora na sua Quinta da Ponte.
Depois desta temporada que permaneceu nas Taipas, fugido dos agentes judiciais, Camilo não deixou de visitar esta povoação. Na sua correspondência travada com José Vieira de Castro, entre 1870-1872, Camilo refere em muitas dessas cartas que frequentava as Taipas, juntamente com Ana Plácido, em busca de alívio dos sofrimentos que padecia (CORRESPONDÊNCIA 1968). Numa dessas cartas, o escritor afirma que consultou três médicos para tentarem diagnosticar os males que antecederam a sua cegueira, que o conduziriam ao suicídio em 1890: “Antes de ontem reuni aqui três médicos. Não sei o que pensam de mim. O de Braga chama gastralgia à moléstia. O de Guimarães também. E o das Taipas, que cura há 60 anos, ainda não sabe o que é. Eu sei, e louvo a delicadeza de todos” (CORRESPONDÊNCIA 1968: 37). Igualmente na sua correspondência travada com Martins Sarmento encontramos cartas, nas quais nos apercebemos claramente que, na década de 80, Camilo era ainda um assíduo visitante desta estância. A título de exemplo, podemos mencionar o seguinte extracto datado de 23 de Maio de 1881, escrito por Martins Sarmento e dirigido a Camilo: “Eu conto ir para Briteiros no dia 8 de Junho. Se for para as Taipas veremos se é capaz de ir ver as minhas velharias” (CARTAS 1990: 65).
Ferreira de castro
Há mortos que continuam a viver. É o caso de Ferreira de Castro que falecia no dia 29 de Junho de 1974, no Hospital de Santo António, na cidade do Porto. Este gigante das letras Portuguesas, tornou-se conhecido fora das fronteiras do idioma em que escreveu, devido ao sentido de humanidade e ao carácter universal dos temas tratados nas suas obras. Com efeito, transformou-se, em poucos anos, no mais traduzido escritor português no mundo.
Três anos antes da ocorrência da sua morte, foi-lhe prestada nas Caldas das Taipas uma significativa e merecida homenagem. Desde a década de 50, Ferreira de castro passava as suas férias no seio desta povoação minhota, hospedando-se no Hotel das Termas, num quarto das traseiras onde mantinha uma escrivaninha de trabalho. As malas de madeira que continham os livros e papéis, necessários para trabalhar, eram despachadas dias antes da vinda, de Lisboa para o Minho, (FREITAS: 28). Do quarto de hotel avistava o frondoso parque da Empresa Termal que possivelmente lhe terá servido de inspiração para alguns dos seus romances. Não convém esquecer, que entre as sete localidades onde o autor redigiu o “Instinto Supremo” (1965-1967) figuram as Caldas das Taipas. Durante anos a fio, este romancista - exemplo de simplicidade e humildade - convivia com os Taipenses, estabelecendo profundos laços de amizade, embora muitos desconhecessem o seu nome, como afirma textualmente o próprio escritor:
“ (...) Tenho residido em vários povoados do Minho, sobretudo nas Caldas das Taipas, onde o Ave, de dia, e a lua, de noite falam muito comigo; e tenho convivido, Verão após Verão, com numerosos camponeses. Ao começo das nossas relações quase todos estes homens e estas mulheres, cuja vida quotidiana representa um dos diversos heroísmos que a História não celebra, ignoram até o meu nome. Para eles eu sou apenas aquele senhor que vem todos os anos, passar alguns meses nas termas e costuma sentar-se numa pedra, à beira dos campos, a ler ou a olhar para as árvores (...) ” (HOMENAGEM 1971: 5).
Todos o respeitavam nas taipas, tal era a sua simpatia e solicitude pela população local, ao longo dos seus habituais passeios “pelas avenidas e jardins da vila e mesmo na fugidia visita aos cafés da terra, para descanso ou para assistir às edições da televisão” (OLIVEIRA 1971: 4). Em suma, no coração dos habitantes das Taipas, Ferreira de Castro era considerado como um Taipense honorário (OLIVEIRA 1994A: 20; Oliveira 1994B: 14 ).
Enquanto passava parte das suas férias nesta vila, muitos eram os seus amigos e admiradores que o visitavam e de cuja povoação, Ferreira de Castro enviou e recebeu cartas e postais de muitos outros. Entre estes contam-se Mário Dias Ramos, como refere Ferreira de Castro, num artigo publicado no “Diário Popular” do mês de Novembro de 1971: “(...) há dois ou três anos, estando eu nas Caldas das Taipas, recebi do meu colega de letras Mário Dias Ramos uma carta muito gentil, pedindo-me uma entrevista para aquele organismo (R.T.P.). Mas eu declinei o convite (...)” (S/A 1976: 57). Outro amigo que o visitou nas Taipas, no Verão de 1958, foi Agostinho Gomes (GOMES 1976: foto reproduzida na pág.151).
no ano de 1963, o autor de “A Selva” após ter permanecido dois meses nesta estância termal, no momento da sua retirada para Lisboa entregou a José de Oliveira, seu amigo das Taipas “algumas palavras” para serem publicadas no semanário “Notícias de Guimarães” prometidas no Verão anterior (OLIVEIRA 1963). Tratava-se de um texto inédito da sua autoria intitulado “A Terra onde a Lua fala” em referência às Caldas das Taipas, que seria editado no “Notícias de Guimarães” do dia 29 de Setembro de 1963 (CASTRO 1963: 1). Nessa mesma edição, o Sr. José de Oliveira, correspondente das Taipas referia-se nesses termos a esse texto de Ferreira de castro:
“ A terra onde a lua fala constitui um poema que muito honra e enaltece as Caldas das Taipas e o seu Autor, seu grande Amigo.
Ferreira de Castro, abrindo uma excepção - visto que não costuma colaborar em jornais - brindou-nos com um escrito que ficará para a história das Taipas e a juntar a muitos outros de outros escritores portugueses e de que tanto se orgulham os taipenses” (OLIVEIRA 1963).
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